O que o caso Soyagro ensina sobre o descasamento entre ativo no papel e dinheiro no caixa.
O que o caso Soyagro ensina sobre o descasamento entre ativo no papel e dinheiro no caixa sob a ótica do inadimplemento e da importância da revisão contratual.
Oi!
Essa semana eu quero te contar um caso que chama muita atenção de toda empresa que vende a prazo.
O Grupo Soyagro, rede de revendas de insumos agrícolas de Sorriso (MT), teve seu pedido de recuperação judicial deferido pela Justiça de Mato Grosso agora em agosto. E o dado que chama atenção não é a dívida e sim o crédito.
A empresa tem R$ 115 milhões a receber de clientes inadimplentes. Contra isso, uma dívida bancária declarada de pouco mais de R$ 60 milhões.
O ativo é quase o dobro do passivo, no papel, essa empresa deveria estar sobrando dinheiro. Só que sobrar no papel e sobrar no caixa são duas coisas completamente diferentes.
O que realmente aconteceu
1. A Soyagro vendia a prazo para produtores rurais, financiando insumo pra próxima safra.
2. Os produtores atrasaram, e boa parte parou de pagar.
3. Os compromissos da Soyagro (fornecedor, banco, folha) continuaram vencendo normalmente.
4. Pra cobrir o buraco, a empresa recorreu a crédito cada vez mais caro: hoje gasta cerca de R$ 20 milhões por ano só de juros.
5. Enquanto isso, boa parte dos clientes inadimplentes também quebrou. Hoje a Soyagro tem R$ 40 milhões travados em 14 processos de recuperação judicial de clientes. Ou seja: nem pode cobrar livremente esse crédito, porque ele virou um crédito sujeito ao plano de outra empresa, com deságio e carência.
O resultado: uma empresa patrimonialmente sólida, mas financeiramente inviável.
O detalhe técnico que muda tudo
Quando um cliente entra em recuperação judicial, o crédito que você tinha contra ele deixa de ser exigível individualmente (a Lei 11.101/05 suspende as execuções, art. 6º) e vira um crédito que precisa ser habilitado no quadro geral de credores.
Ele concorre com todo mundo da mesma classe, e é pago segundo o plano homologado, geralmente com deságio pesado e prazo de anos.
A diferença entre estar na classe de credor com garantia real e estar na classe de quirografário é a diferença entre ter prioridade sobre um bem específico e ficar no fim da fila com todo mundo que não tomou garantia nenhuma.
O que fica pra sua empresa
Se você vende a prazo, seja insumo, serviço ou mercadoria, três perguntas valem mais que qualquer relatório de fechamento de mês:
Meus contratos têm garantia real bem constituída e registrada antes da entrega, ou é crédito quirografário disfarçado de contrato comercial?
Meu maior devedor demonstra algum sinal de estresse financeiro que já devia ter disparado negociação, reforço de garantia, ou ação preventiva?
Minha cobrança age no primeiro sinal de atraso, ou só quando o problema já é uma bola de neve de milhões?
A Soyagro tinha patrimônio suficiente pra nunca ter chegado numa recuperação judicial. O que faltou foi estrutura de garantia e tempo de reação. E isso é possível de ser evitado com um contrato bem feito e régua de cobrança acionada cedo.
Se você vende a prazo e tem percebido um aumento da inadimplência do seu negócio, o ideal é agir enquanto há tempo de resolver o cenário com maior tranquilidade, recuperar os ativos e revisar os contratos.