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O que o caso Soyagro ensina sobre o descasamento entre ativo no papel e dinheiro no caixa.

O que o caso Soyagro ensina sobre o descasamento entre ativo no papel e dinheiro no caixa sob a ótica do inadimplemento e da importância da revisão contratual.

Análises técnicas3 min de leitura
PorJúlia VinheskiOAB/PR 121.884

Oi!

Essa semana eu quero te contar um caso que chama muita atenção de toda empresa que vende a prazo.

O Grupo Soyagro, rede de revendas de insumos agrícolas de Sorriso (MT), teve seu pedido de recuperação judicial deferido pela Justiça de Mato Grosso agora em agosto. E o dado que chama atenção não é a dívida e sim o crédito.

A empresa tem R$ 115 milhões a receber de clientes inadimplentes. Contra isso, uma dívida bancária declarada de pouco mais de R$ 60 milhões.

O ativo é quase o dobro do passivo, no papel, essa empresa deveria estar sobrando dinheiro. Só que sobrar no papel e sobrar no caixa são duas coisas completamente diferentes.

O que realmente aconteceu

  1. 1. A Soyagro vendia a prazo para produtores rurais, financiando insumo pra próxima safra.

  2. 2. Os produtores atrasaram, e boa parte parou de pagar.

  3. 3. Os compromissos da Soyagro (fornecedor, banco, folha) continuaram vencendo normalmente.

  4. 4. Pra cobrir o buraco, a empresa recorreu a crédito cada vez mais caro: hoje gasta cerca de R$ 20 milhões por ano só de juros.

  5. 5. Enquanto isso, boa parte dos clientes inadimplentes também quebrou. Hoje a Soyagro tem R$ 40 milhões travados em 14 processos de recuperação judicial de clientes. Ou seja: nem pode cobrar livremente esse crédito, porque ele virou um crédito sujeito ao plano de outra empresa, com deságio e carência.

O resultado: uma empresa patrimonialmente sólida, mas financeiramente inviável.

O detalhe técnico que muda tudo

Quando um cliente entra em recuperação judicial, o crédito que você tinha contra ele deixa de ser exigível individualmente (a Lei 11.101/05 suspende as execuções, art. 6º) e vira um crédito que precisa ser habilitado no quadro geral de credores.

Ele concorre com todo mundo da mesma classe, e é pago segundo o plano homologado, geralmente com deságio pesado e prazo de anos.

A diferença entre estar na classe de credor com garantia real e estar na classe de quirografário é a diferença entre ter prioridade sobre um bem específico e ficar no fim da fila com todo mundo que não tomou garantia nenhuma.

O que fica pra sua empresa

Se você vende a prazo, seja insumo, serviço ou mercadoria, três perguntas valem mais que qualquer relatório de fechamento de mês:

  • Meus contratos têm garantia real bem constituída e registrada antes da entrega, ou é crédito quirografário disfarçado de contrato comercial?

  • Meu maior devedor demonstra algum sinal de estresse financeiro que já devia ter disparado negociação, reforço de garantia, ou ação preventiva?

  • Minha cobrança age no primeiro sinal de atraso, ou só quando o problema já é uma bola de neve de milhões?

A Soyagro tinha patrimônio suficiente pra nunca ter chegado numa recuperação judicial. O que faltou foi estrutura de garantia e tempo de reação. E isso é possível de ser evitado com um contrato bem feito e régua de cobrança acionada cedo.

Se você vende a prazo e tem percebido um aumento da inadimplência do seu negócio, o ideal é agir enquanto há tempo de resolver o cenário com maior tranquilidade, recuperar os ativos e revisar os contratos.

Quer conversar sobre o seu caso?